A OPORTUNIDADE

Sob as muralhas

Roberto Mangabeira Unger

Por quase dois anos os defensores do governo explicaram que o rumo tomado era transição justificada por herança maldita. Agora ficou claro que o governo não vê a herança maldita como problema; vê-la como solução. "Não tem volta", disse, exasperado, o Presidente, que, escarnecendo de "fantasias acadêmicas", já exibe o jeito dos potentados que, que lá de cima das muralhas de Jericó, zombavam dos antigos hebreus. O projeto do governo é combinar política econômica destinada a assegurar, a qualquer preco, confiança financeira com políticas sociais compensatórias dirigidas aos famintos. Se o governo não foi ainda mais longe nessa diretriz é porque sua inoperância -- sua incapacidade de tirar qualquer iniciativa do papel -- impõe limites a sua subserviência. Desmentida a desculpa da transição, surge outra: o Presidente, bom czar cercado por vilões, estaria sendo enganado pelas elites. Não é verdade: o candidato presidencial acintosamente desfrutável tornou-se o Presidente desfrutado. Fez porque quis.
O resultado é que temos no Brasil governo de centro-direita, tolerado pelos ricos (embora também por eles considerado incompetente e corrupto), cada vez mais odiado pela classe média e montado ainda na manipulação da fantasia popular e na identificação de milhões de trabalhadores com o ex-metalúrgico mundano, esperto e acovardado que os traiu. A política econômica conta com o apoio da direita do PSDB e da imprensa internacional de negócios. Há recuperação cíclica em curso, não sustentada pela expansão da renda popular e vulnerável, pela natureza das opções em que se fia, a qualquer trauma externo. A política social é a mais retrógrada dos últimos cinquenta anos. Ocorre violenta involução nas práticas republicanas, com a desmoralização dos partidos, a cooptação dos meios de comunicação e o abuso de medidas provisórias para impor decisões que uma maioria parlamentar balofa, cúpida e descrente não consegue acordar.
A fragilidade dos partidos e da mídia, as baixas expectativas de um eleitorado carente de informação e farto de mentira e sobretudo a falta de alternativa pessoal, política e programática identificável pelo país -- tudo isso reforça a vantagem de um Presidente em exercício para o embate da reeleição. Essa vantagem, porém, pode desfazer-se de repente. Basta que se interrompa o precário crescimento econômico. Ou que eclodam escândalos gerados pelo conúbio mais íntimo entre o poder e o dinheiro que o Brasil jamais viu.
Nada disso adiantará, entretanto, se os que nos opomos a esse descalabro permitirmos que o país tenha de escolher em 2006 entre duas vertentes do mesmo atraso. Ainda lutamos para resumir nossa proposta, para construir base partidária e para definir candidato à Presidência. A base, contudo, já emerge. As idéias já se traduzem em pequeno conjunto de propostas singelas, moderadas e factíveis. E o candidato se tornará conhecido em todo o país com um mês de campanha. O que falta é acender chama de paixão no espírito de alguns. Produzindo luz e calor, acabará por reduzir a cinzas obstáculos que parecem hoje intransponíveis.
Sinto e pressinto que em muitos corações brasileiros a inconformidade tenta converter-se em ação surpreendente, magnânima e transformadora. Coragem, Brasil: os próximos dois anos nos farão lembrar quem somos.
30 de novembro de 2004

Favas descontadas

Parece que não pode mudar. Parece que a única alternativa politicamente viável é a recondução ao poder dos mesmos que governavam o país antes, em nome do mesmo projeto dos que governam agora. Parece que o declarado contentamento da maioria dos eleitores com o presidente desmente a força do desejo mudancista. Parece que a possibilidade de mudar acabou quando a economia voltou a crescer. Parece que o continuísmo encontra reforço definitivo na ausência de agentes políticos, nacionalmente visíveis, que representem outro rumo com a moderação, o realismo e a competência que os cidadãos têm o direito de exigir.
Parece mas não é: entre todos esses "pareces" e a realidade há espaço para a vontade transformadora atuar.
Para começo de conversa, quando foi a última vez que os fatos aconteceram em nossa política de acordo com o roteiro anunciado nos jornais? É para jogar roteiros fora e para escrever outros que se faz política. A recente eleição na Câmara dos Deputados é pequeno exemplo: só não acontece o surpreendente quando o sentimento de sua impossibilidade inspira as omissões que acabam por tornar o surpreendente impossível.
Vencida essa preliminar, importa entender como o eleitor encarna eleição. Ele não precisa de crise econômica para repudiar um governo. A história da política moderna em qualquer país demonstra que opções eleitorais por mudanças de rumo ocorrem com mais frequência em situações de desafogo econômico do que em momentos de descalabro econômico: o pânico desestimula reorientações decisivas. Mais perigoso para o poder numa democracia do que reveses na economia é a disposição popular de partir para novas tarefas e a convicção popular de que elas exigem novos executores.
O eleitor pode avaliar bem um governo e, contudo, despedi-lo, como aconteceu na última eleição paulistana. Voto não é distribuição de medalha em concurso de prêmios; é decisão a respeito do futuro. Há duas indagações em eleição: qual a tarefa da próxima etapa e quem, entre os concorrentes, pode melhor executá-la? Quem cumpriu bem uma missão na vida nacional raramente será o mais capaz de cumprir a missão seguinte. A obra de estabilização econômica está feita; ninguém que seja responsável quererá revertê-la. A obra seguinte é botar o país para trabalhar e para estudar.
É verdade que a bagunça partidária e os acertos entre o governo e os oligopólios de mídia dificultam o aparecimento de novas mensagens e de novos mensageiros. Entretanto, os brasileiros sabem defender-se: anulam essas dificuldades excepcionais com facilidades igualmente extraordinárias: despidos de preconceitos em política e afeitos a opções eleitorais audaciosas, buscam saída sob qualquer rótulo e agente sob qualquer roupagem. Candidato presidencial desconhecido no Brasil se faz conhecido em um mês de campanha. Basta um mês para produzir reviravolta no quadro sucessório.
Resumo da história. É muito difícil desmontar a máquina que se apoderou do Brasil, feita de dinheiro que compra consciências, de temores que corrõem esperanças e de dogmas que substituem pensamentos. Quem diz, porém, que a eleição presidencial de 2006 são favas contadas não entende de política. E não entende de Brasil.
1 de março de 2005

O outro Brasil

Longe dos embates de nossa política nasce outro Brasil. Vir ao encontro dele é a tarefa prioritária da alternativa a construir na sucessão presidencial de 2006.
A acreditar nos termos em que se dá o debate brasileiro, tanto à direita quanto à esquerda, o Brasil é país que se constituiria de elite internacionalizada e de massa miserável. Entre essas duas forças, mal se sustentaria classe média economicamente fragilizada e culturalmente desorientada. Essa visão desconhece o que de mais importante acontece no país hoje. E ajuda a explicar como as duas coalizões partidárias que dominam a política brasileira -- a que governa agora e a que governava antes -- entendem sua obra: agradar a elite internacionalizada e seus sócios estrangeiros e atenuar, com as sobras produzidas pelo crescimento que o acerto com os endinheirados possibilitaria, os sofrimentos da massa miserável.
Há, entretanto, classe média emergente e dezenas de milhões de candidatos a ingressar nela. Compõe-se essa classe de trabalhador subindo, não de burguês caindo. Não reconstrói o Brasil estabelecido; para isso lhe faltam os meios de representação política. Constrói Brasil paralelo. Saída da escola pública, estuda à noite em faculdade particular. Esforça-se para abrir empreendimento, para prestar serviço profissional ou para iniciar, de baixo, carreira em grande empresa. Envolve-se em vida associativa. Abraça ideal de auto-ajuda. Seu projeto de vida é o dos esforçados; sua moral, a de cumprir a promessa dada e exigir a responsabilidade individual. Serve como sustentáculo de muitas das igrejas evangélicas, erigidas por seus fiéis como baluartes contra os desmandos da sociedade em volta.
Em todas nossas grandes cidades há bairros inteiros ocupados por essa classe e moldados a sua imagem. E há centenas de cidades médias dominadas por ela. Proliferam no país micro-regiões agrárias em que ela desenvolve lavoura relativamente avançada, de escala familar. E quando ela não encontra oportunidade suficiente no Brasil -- já que esse muito ela tem de fazer com pouco -- vai trabalhar no estrangeiro. O quadro crescente de trabalhadores brasileiros nos Estados Unidos, por exemplo, é constituído quase exclusivamente por ela.
Essa classe ainda é pequena minoria no Brasil. Exerce, porém, influência desproporcional a seu tamanho. Isso porque em vez de prestar atenção ao que se diz na política e na mídia, a maioria popular presta atenção ao que se faz nessa classe: sua ambição é pertencer a ela. Excluídos de acesso privilegiado ao poder, aos canais de difusão de idéias, ao crédito, à tecnologia e à alta cultura, os emergentes já comandam o imaginário nacional.
O destino dessa classe não está predeterminada; depende das opções que lhe sejam oferecidas. Desde o século 19 o pior erro da esquerda mundial foi eleger a pequena burguesia como inimiga. Em toda a parte predomina a aspiração pequeno-burguesa para conseguir modesta prosperidade e independência. A tarefa é fornecer-lhe repertório de instrumentos institucionais mais amplos do que a pequena propriedade tradicional e o egoísmo familiar.
Entre nós essa tarefa é urgente e decisiva. A força que souber dar braços de oportunidade econômica e asas de oportunidade educativa a esse movimento da nação será abraçada pelo povo brasileiro. E transformará o Brasil.
15 de fevrereiro de 2005

Classe média e futuro nacional

Quem sinaliza no Brasil o rumo que o país tomará é a classe média. Todas as renovações brasileiras ocorreram quando a classe média se desgarrou da plutocracia neocolonial e passou a propugnar, em nome de todos, outra idéia do futuro da nação. Assim foi com o abolicionismo e a república no século 19 e com os movimentos democratizantes e desenvolvimentistas no século 20. Tais momentos de insubordinação ocorreram quando a classe média viu seu avanço bloqueado não apenas pela frustração de seus interesses econômicos mas também pela negação de seus interesses morais. Ela sempre quis escapar das humilhações de uma sociedade carente de direito e de respeito.
A primazia da classe média como sinalizadora do futuro só fez aumentar no Brasil de nossos dias. Isso porque ao lado da classe média tradicional surgiu classe média de emergentes, feita na base do estudo à noite, da cultura de auto-ajuda e do empreendimento teimoso, sem crédito nem favor. E grande parte da massa de trabalhadores vê nesses emergentes seu arauto e seu modelo.
Diz-se que a classe média abandona a coalizão que governa hoje. É verdade. Diz-se também que reflui para a coalizão que governava antes. Só será verdade, por processo de exclusão e de desesperança, se não surgir força alternativa que encarne com mais autenticidade o que querem a classe média e a massa de candidatos a emergentes.
Sejamos claros por que razão a classe média tende a abandonar o PT e seus aliados, ainda que continue a reconhecer exemplos isolados de competência no petismo. A política do governo atual se resume a assegurar confiança financeira e a prometer -- sem cumprir -- assistencialismo social. É política para rentistas e -- se fossem cumpridas as promessas -- para famintos. Não para produtores e para trabalhadores. Não para a classe média, antiga ou emergente, com que grande parte da nação se identifica. Não se trata de defeito que se possa sanar com iniciativas tiradas de bolso de marqueteiro. Exige reorientação da política econômica. E requer política social que liberte a classe média do pesadelo da mensalidade ecolar e do plano privado de saúde, construíndo escola pública e saúde pública de qualidade. O sacrifício das práticas republicanas ao bonarpartismo negocista completa o quadro de afronta à classe média. Um projeto de poder desse tipo no Brasil pode sustentar-se por anos. Pode até conseguir reeleição. Está, porém, marcado para morrer. Ninguém governa o Brasil por muito tempo apoiado em aliança entre os bancos e os grotões.
Por que, diante dessa desilusão, se voltaria a classe média para uma força política -- como a do PSDB e de seus aliados -- que, em seus oito anos de poder central recente, fizeram o mesmo, embora, às vezes, com menor radicalismo e maior abilidade? Pode até resignar-se a isso, mas só por falta de opção, se identificar no rodízio entre os dois agrupamentos rivais e paralelos um mal menor.
A moral da história é claríssima. O caminho da classe média e portanto do Brasil depende do surgimento de forças, de agentes e de propostas capazes de oferecer a alternativa genuína que a falsa rivalidade das duas coalzões partidárias dominantes sonega ao país. É a essa tarefa -- difícil, exigente, indispensável, apaixonante, engrandecedora -- que devemos agora nos dedicar.
16 de novembro de 2004